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quinta-feira, 19/06/2003 às 12:49
Domingo eu fiz algo que deveria ter feito a muito tempo. Arrumado o passado. Aberto, finalmente aquelas caixas lacradas, cheias de lembranças e passado elas a limpo. Quando as vejo, não tem como evocar o passado. Não é um passado especialmente bom ou ruim. Não são lembraças especialmente boas ou más. São só lembranças, sem sentimento. Afinal, nas caixas só tinham coisas. As coisas que estavam nas caixas não eram especiais. Eram especiais para mim. Coisas que fiz, que usei. Coisas que não representariam nada para ninguém, exceto para mim. Não sou uma pessoa típica, também não tive uma infância típica. Logo não são objetos típicos. Desde o meu time de botão, vergonhosamente misturados os botÕes bões com os perna de pau, entropia que o memória nenhuma é capaz de desfazer. Quem eram os botões bons? E quais não prestavam? Quais era os nomes? (todos os jogadores tinham nomes) Me entristece não me lembrar do time oficial. Alguns eu me lembro Beckenbauer e o outro Becker, ambos alemãos. O tricolor, o botão mais bonito, mas, que apesar de não ser muito bom, sempre entrava no time para impressionar o inimigo. O goleiro oficial, o reserva, e o de acrílico que o meu pai fez (uma das poucas boas lembranças que tenho do meu pai). As traves, Valesca e Valéria, nome carinhoso de duas putas que moravam no prédio da frente. Um dos namorados delas, o Dinho, tentou me assaltar enquanto eu ia ao Disco comprar alguma coisa para a minha mãe. Ele queria meu relógio. Eu saí correndo, mesmo depois de ser ameaçado de levar porrada. Ele morreu uma semana depois num assalto a banco. Tem muita coisa mais. Meu conjunto de bola de gude, que faz mais bem na mão de outro menino que eu. Nunca fui bom em gude. Mal jogo sinuca ... Um saquinho xadrez cheio de sementes ... nossa ... devem ter no mínimo 10 anos, 15 se eu tiver que chutar. Essas sementes são o resultado do primeiro discurso de oratória que fiz na vida. Estávamos no barranco atrás do bloco 2. Aquele pedaço de terra inclinada que ligava a horta do bosque ao play do bloco 2, se lembra? Estavam todos lá, discutindo a proibição de jogar pedras na turma rival. Coisas de infância. Eu tinha proposto a gente jogar essas sementes. Veio o Diogo, um dos moleques locais, que Deus sabe que fim levou, e disse: E dá-lhes geringonças. Não tenho nenhum bexigolingue, mas já deixei no texto o manual para criá-los. Mas tenho muita gerinconça. A primeira que inventei para impressionar a turma foi uma lanterna, montada em uma caixa de remédio laxante, que usávamos para iluminar embaixo do palco do colégio. Ganhei o posto de "inventor", logo abaixo do "Capitão Cobra", e entrei para a turma. Cheguei até a ser dispitado entre os grupos rivais! Tecnologia é uma arma poderosa e estratégica. Envelhecendo mais, as gerinconças ficaram mais sofisticadas. Tenho dezenas de fontes das mais diversas voltagens, formas, e caixas de sabonete. Duas caixas patola ainta intáctas de furos. Uma fonte regulada que tem um capacitor maior que uma pilha grande. Essa fica, porque pode ser útil. Uma enigmática caixa com 10 leds, um botão e um interruptor. O que seria? Um dado eletrônico. Projeto meu. Com orgulho. Queria ver se alguém deduziria a utilidade dele somente olhando pro circuito. Para que diadoa alquem iria querer um dado eletrônico de 10 "faces"? Um dos meus hobbies era fazer kits de espião. Eu, com minhas ferramentas, conseguia colocar tudo dentro de uma caixa de fósforo. Lábis, Borracha, Papel, Caneta, Bombinha, Barbante, Caramelo Nestlê, Toco de bambú (para esconder mensagens secretas), Gilete (onde eu achava isso?), prego, cortador de unha, estalinho ... caramba ... quanta coisa cabe numa simples caixa de fórforo ... Eu aprendi a montar essas caixinhas no famosíssimo "Manual do espião", que tenho até hoje, sujo de lama da escada da biblioteca do colégio, e óbviamente sem capa. Eu praticamente dormia com o livro, não largava o manual de jeito nenhum. Capa nhenhuma é a prova de criança ... essas caixinhas de fósforo ficam. Fitas de videogame ... Zelda 1, 2, Soltice e Super Mario Bros. Hoje eu baixo da internet, e jogo num emulador ... suspiro ... um microchip de memória ... que eu achava, e ainda acho bonito. Não se fazem mais EEPROMS como antigamente. O chip tinha uma lente transparente para apagar ... O que eu ganho me lembrando do passado? Se eu não me lembrar nunca mais, por não ter os ganchos para ativar a memória, que diferença faz? O que muda elas na minha vida? São memórias que não tenho ninguém para compartilhar, porque não fariam sentido, não seriam tão intensas para quem não as viveu. As memórias só são úteis se puderem ser compartilhadas. E só é compartinhado com quem viveu. Tem minhas cartas de Magic. Descobri que aquele negócio não era para mim quando perdi (ou roubaram?) o meu baralho "campeão". Tomei uma mágoa de jogar com meu baralho reserva, nunca mais comprei. Meses depois desisti de jogar. Mas o baralho reserva ainda era bom. Bem ... estou vendendo todos os meus jogos de cartas. Comentários
Achei muito legal o post. Bem nostálgico e tal... fiz muita coisa doida também na minha infância e apesar de não achar uma posição madura da minha parte, ainda acho que envelhecer é uma merda por isso. Perde-se o gás pra inventar coisas "inúteis" simplesmente pelo fato de se inventá-las e ser divertido o processo. Abraços. Por: Nix às junho 19, 2003 04:54 PMMuito bom mesmo. Vou produzir bexingolingues em massa e ficar milionário vendendo. Tenho um contato com o Bush e ele vai querer testar quando for invadir a Síria. Por: Daniell às junho 23, 2003 12:47 PMVc poderia esta me passando o nome do livro e autor do manual do esapião Putz! Sua história é muito semelhante à minha. Para vc ter uma ideia eu também fazia as mesmas caixinhas que vc falou. Também tinha o Manual do Espiao. Nunca soube exatamente como ele veio parar nas minhas maos (eu era muito novo). Só sei que por anos a fio eu fiquem imaginando o havia nas paginas faltantes. O exemplar que eu tinha estava caindo aos pedaços, mas mesmo assim eu dava graças a Deus por te-lo. Era a coisa mais disputada entre os grupos rivais. O problema é que numa época da minha vida minha familia mudaou-se muitas vezes e numa dessas mudanças, o manual se foi. De lá para cá eu tenho tentdo encontra-lo em vao. Um grande abraço. Oi tudo bem com vc? eu gostaria que vc me fizesse um favor, tempos atras eu entrei em contato com vc sobre o manual do espião ai vc me mando umas foto do livro. Mas eu tive que formatar meu PC, vc poderia mandar elas para mim de novo? Eu sei que vc tem um valor setimental por este livro, mas vc o venderia? E aí, tudo bem? Achei curioso que tenha citado o "manual do espião", pois estou a algum tempo procurando um exemplar dele, e não consigo achar (coisas de nostalgia de criança). Creio que o que você possui tenha um certo valor sentimental. Mesmo assim gostaria de propor: você gostaria de vendê-lo a mim? Pago bem. Obrigado pela atenção. Aguardo resposta pelo e-mail. Um abraço. Por: EROS às fevereiro 4, 2004 11:28 PMCaramba meu, eu achava q só eu era maluco na infância. Maluco nada, nós sim soubemos aproveitar a infância. Eu também tenho, até hoje, o "Manual do Espião", completo apesar de rabiscado e meio destruído. Tenho todos os equipamentos também (caixinhas "kit com levantador automático", binóculo, estilingue feito com um freio de Barra Forte, periscópio de cano de pvc, caderninho de anotações, anéis de sinalização, etc) Cheguei até a criar uma organização, uma espécie de "esquadrão Classe A", eu e mais três amigos. Tínhamos casa na árvore e tudo. Puxa, doidera mesmo. Poderíamos formar um grupo dos "Ex Espiões Mirins", seria legal... |
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